segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Deito-me no céu


Ilustração de Alan Baker
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
Entrego-me, deito-me no céu vazio, azul, intenso, aguado de mar e sal e lágrimas e areia que dói quando se esfregam os olhos...
Deito-me no vazio do céu, rasgando as nuvens, o vento, as correntes quentes e frias que me lambem o corpo e agarram, dilacerando e reabrindo golpes antigos. Que já conheço, que já sei como doem, que arrisco de novo em senti-los...
Desço numa estonteante viagem, que me acelera o coração e oprime-o com medo, tanto medo...
De não sentir as minhas asas a abrirem... de me aperceber em vão que porventura não as tenho.
E vou querer que me agarres com dedos firmes e mãos fortes, que vão saber a rochas que não se gastam com o vento. Rochas de aço e não de areia...
Nunca mais quero que me saibas a areia. Essa escorrega-me pelos dedos e nunca a consigo agarrar... ilusão de a prender, abrir as mãos e sentir o vazio, que me escorre, como o azul que me emprestas do teu olhar.
E depois que sofreguidão!... A querer-te dentro de mim, para sempre e sempre. Que sofreguidão em querer condensar-te num só dia, que seja vivido inteiramente para mim e por mim, mas também por ti. Porque o queres. Porque queres ser meu, sempre meu. Mas com uma loucura permanente e tão nossa, tão incompreensível para todo o resto.

sábado, 6 de setembro de 2008

Men at work, Land down under



Conheço uma pessoa que começava a cantar este música assim:
"Cavalinho na feira..." eheheheheeh!!!!
Está descansado que não revelo a identidade :)))

Mais uma das minhas músicas preferidas!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Judite Dias no Teatro Comuna

Esta postagem é em tua honra Judite, minha querida amiga e actriz preferida... Estou desejosa de te ver de novo sob o holofote dos palcos!
Fico a torcer por ti :)



A Judite está de totós ;) e depois de macacão azul... é a afilhada do Santo António!



A Judite, para os que a não conhecem, está de casaco cor-de-laranja ;) e depois de chapéu de palha...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Heróis do mar - Só gosto de ti (tv 1985)



Podem dizer o que quiserem, mas não deixo de pensar que esta canção é espectacular!!!

Só gosto de ti, porquê não sei,
Mas estou bem assim e tu também...

Esta é para ti! Tu sabes quem :)



a
a
a
a

a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
Ilustração de .... (tenho de procurar !!!)
a
Nunca hei-de conseguir entrar dentro de ti
E agarrar o fogo que fica nos teus olhos.
Fico de fora a olhar-te,
A desejar que fosses estrela
Para conservar a tua luz na minha mão.
E não adianta,
Por mais que digas ou faças, estás sempre longe;
Mesmo quando me abraças
Ou ficas dentro de mim horas e horas.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

João Pestana


Ilustração de Wendy Berry
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a

O sono... Um João-pestana que vem com magias fechadas na mão. Nessa mão pequena e apertada guarda tesouros. Ele vem rindo baixinho, esvoaçando e abrindo a mão, soltando aos poucos histórias de fadas, duendes e dragões.
Ele distribui sonhos quando abre a mão.
Fala do escuro, brinca aos sóis, joga estrelas ao céu, uiva e geme à lua... Agita as árvores num sopro sereno, acorda os animais com cantares de desvario. Sorri e graceja em melodias que quebram e doem... Sorri, passeia entre paisagens pintadas com os dedos, de cores garridas e tristes. Passeia e chega ao vazio. Aponta o dedo à cor mais bonita, borra o vazio de magias e runas.
Esboça um castelo, conta histórias e lendas...
E os meninos ouvem e tecem sonhos, nos sonos que descem sobre as suas cabeças...

Alphaville - Forever Young



Porque músicas incríveis como esta, duram para sempre...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Mãos


Ilustração de Manuela Schwarz
a
a
a
a
a
a
a
Há mãos que beijam quando tocam a pele, quando contornam as curvas, quando acariciam os gestos...
Há mãos que trocam anéis quando querem trocar sonhos... há mãos que falam demais quando juram amor.
Há mãos que trocam sangue, sonhos, cuspo e palavras... mãos que se sujam de chocolate com vontade de serem lambidas, tocadas... ou com vontade apenas de serem sentidas.
Um toque de dedos, um entrelaçar de vidas. Um dedo que pressiona com vontade de agradar, de dizer: estou vivo, encontra-me!
Há mãos que se juntam e não desgrudam – evitam outras mãos, outros toques, outras vidas.
Há mãos que se estendem e pedem sonhos, olhares, gestos... e não moedas.
Há mãos que quando juram é para sempre, outras que nem sabem o que isso é.
Se as minhas mãos falassem... eu pedia-lhes silêncio, por favor.

As cidades, Rodrigo Leão



Simplesmente fantástico...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O meu dragão de asas cortadas



a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
Ilustração de Al Stefano
a
a
A noite é escura, e o medo... é um dragão que tem asas e voa.
Um dia o dragão veio e agarrou-me. Respondeu, sem querer, às minhas preces. Levou-me para tão longe e tão alto, que eu até me esqueci que o acompanhava.
As suas asas... cortei-as! É meu prisioneiro. Fugir não foge porque já me ama. Eu sussurro-lhe: “Sou a tua princesa, a tua menina bonita. Sou o teu conto preferido de amor, aquela canção que te obriga a fechar os olhos e recordar...”
O meu dragão de asas cortadas... sonha comigo em sonos soltos, enrosca-me entre o seu pêlo, protege-me da vida. Ele pinta-me de cores bonitas, lambe-me os olhos, passa a mão no meu cabelo. Nada mais existe, só eu e o meu dragão.
Ao meu dragão nasceram-lhe outras asas, mais fortes e possantes. O meu dragão, outrora de asas cortadas, tira-me o frio e o medo... Protege-me da noite, dos gritos que me querem ensurdecer. Esfrega-se no meu corpo com um abraço e pede-me que não trema. Fecha-me os olhos e fala-me de estrelas para que a escuridão do meu olhar não seja intensa. Fecha-me os olhos...
Os dias passam, cada vez mais lentos, cada vez mais sós. O bom é pesado, o mel, fel. Eu quero agora acordar deste sono pesado e não consigo. Se ele nota que eu rasgo o luto, leva-me para mais longe para onde as alturas já nem sequer existem.
Quem não tem asas agora sou eu, mas fugir já não fujo porque o amo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

The power of love, Frankie goes to Hollywood



Let yourself be beautiful...

Alguém

Sei de alguém que canta num deserto à noite.
Não é um deserto, é uma praia. Só que esse alguém canta de costas viradas para o mar.
Enquanto canta as ondas crescem e morrem. Esse alguém não gosta de as ver morrer. Por isso vira-lhe o rosto e escuta-as apenas, e daí canta. Talvez por isso o seu cantar é vaivém.
Um dia uma gaivota, que o vento empurrou por engano, disse-lhe... Disse-lhe que as ondas não morrem. Disse-lhe que se levantam e caem porque querem ver o rosto da desconhecida que lhes canta.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Amélie Poulain



Um dos meus filmes favoritos, já para não falar da banda sonora que é incrível :)

Ophelia


a
a
a
a
Ophelia por Millais (1829-1896)
a
a
a
a
Se te deitares nas águas azuis e calmas... fecha os olhos e dorme. A espuma há-de embrulhar os teus cabelos e colorir-te de brilhos, cores e risos. Não faz mal não respirar. Para quê?... Foste feita para mergulhar nas águas e fechar os olhos. Deita-te no silêncio e fica... fica enquanto lá fora gritarem e estiver escuro. Fica que aqui é tudo azul e bonito. Lá fora está frio e parece-me que também não pertences lá.
Deixa-te ficar, que as fadas hão-de vir buscar-te...
Lá fora o Outono continua com os seus castanhos de ouro pendurados nas árvores. Lá fora a realidade chega despida ou vestida de preconceitos. E tu não queres nada disso, eu sei. Tu sabes que a lua não é um rosto bonito no céu a sorrir, tal como o sol não é o fogo que queima cá dentro. A vida não é um respirar contínuo tão-somente, aliás, tu sabes que isso é o menos importante.
Deixa-te ficar que as fadas hão-de vir buscar-te...
Bem sei que há os que choram, mas mesmo esses hão-de secar as suas lágrimas. Tu mais tarde serás sombra vestida de cores com asas.
Deixa-te ficar que as fadas hão-de vir buscar-te...
Chegarão de mansinho, com pés de orvalho. Hão-se tocar-te ao de leve, espalhando os teus cabelos, cobrindo-te de óleos de cheiros. Hão-de beijar-te, sugar-te a vida, soprar-te histórias bonitas para dentro do teu sono.
Vês?... Não faz mal não respirar.
A tua imagem no lago de cores de Outono será ainda pintada por um louco inspirado pelo destino. Desenhará o teu cabelo espalhado no lago como fogo, e o teu rosto tranquilo dirá que encontraste fadas pelo caminho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Please do not go, Violent Femmes



A quem me apresentou os Violent Femmes... um muito obrigada, por tudo.

Pérola perfeita


a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
Vermeer, Rapariga com brinco de pérola
a
a
Pérolas, contas do mar que fazem colares para fadas.
Contas de contos... uma por criança, outra por sonho perdido, outra ainda por desgosto sentido.
São contas, com laivos de arco-íris que enfeitam cabelos e pescoços nus. Desmancham-se em grãos de areia por cada fada que morre sufocada pelas próprias asas.
As pérolas desfazem-se... não há sorrisos para as manter. Não há lambidelas do tempo que as tornem redondas e com paciência as vejam crescer.
Pérolas... uma ironia do tempo. Quem espera alcança, quem é impaciente agarra areia que escorrega pelos dedos.
Pérolas, contas do mar, contos de amor, contos de amar...
Quem vai esperar pela pérola perfeita?

domingo, 24 de agosto de 2008

Havia alguém


a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
Ilustração de Benjamin Lacombe
a
a
Havia alguém que ficava comigo…
Tinha uns cabelos de noite e uma voz terna.
Ela baixava a cabeça para me segredar ao ouvido, a luz morria.
Ficava a lua e uma voz que cantava.
Falava-me de montanhas onde havia castelos, onde reis viveram.
Falava-me do mar e da terra,
Falava-me de um castelo pertinho do céu onde queria viver…

Veja bem, meu bem... - Maria Rita

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Fadas


a
a
a
a
a
a
a
a
Ilustração de Nicoletta Ceccoli
a
Vejo fadas, ou melhor, eu sinto o vento gelado que me sopram nas costas. São cores rasgadas com asas que não me concedem desejos nem sequer têm varinha de condão. Penso que se perderam a caminho do céu. Foram um dia crianças, engolidas pelo mundo, vividas pela vida. Fecharam os olhos e abraçaram o sol. Queimaram tudo por dentro. Não restaram senão cinzas que o vento pegou e levou.
Na realidade, elas perseguem-me com as suas histórias. Fico cem anos mais velha por cada história repetida daqueles livros de páginas amarelecidas e rasgadas pelo tempo. Eu bem que fecho os olhos e grito, para não ouvir senão a minha voz... Mas ecoam os seus gemidos e elas tão tristes e violadas pela indiferença, imploram-me que ouça.
Eu observo-as... as fadas de face gelada, de mãos trémulas e frias, cantam enquanto se sentam num canto de um chão vazio e sujo. Vivem para lá do palpável, para lá do que vive. São sombras apenas, que me acompanham e que me lembram de que o medo e as sombras existem. Têm saudades daquilo que nunca tiveram, saudades do escuro e do colo, de um beijo terno que nem se sente. Passam a noite no embalo e as saudades ficam no aconchego e no amor. Quando embaladas nem sabem se as amam, nem sabem se as amam...
E eu sinto sabor a areia, a vento e a fadiga. Cuspo raiva para o chão mas este sabor não passa. Bebo água, água e mais água querendo que ela me afogue por dentro e por fora. Agarro a cabeça com força, mas continua tudo a andar à roda, à roda, em agonias violentas, em enjoares estonteantes. O carrossel não pára e as crianças gritam porque os lindos cavalinhos de pau as atiram ao chão. São fadas agora...
Fadas que concedem desejos a quem tem tudo...

Solidão
















Ilustração de Benjamin Lacombe

Sean Riley



Para ouvir, fechar os olhos e embalar o corpo...

Lua nos meus olhos


Ilustração de Marta Chicote
.
A minha cama é o tapete voador dos meus sonhos.
Junto com força os joelhos ao peito e os meus cabelos voam, porque o meu pensamento viaja longe, para lá das árvores e do negrume do céu. O gato preto mia. Salta para o tapete comigo e espera boleia nestas viagens.
Vejo a lua num céu de pontinhos brilhantes. Ela sorri-me sem rosto, só com lábios de luz.
Eu olho a lua e ela revê-se no meu olhar… eu sou o outro lado do espelho onde vive a sua alma… calma e gentil com sussurros de vaivém.
Houve um dia… que o céu ficou sem lua. Ela não voltou. Ficou presa cá dentro, embalada na água dos meus olhos. Pensou que tinha encontrado o mar… eu expliquei-lhe aflita, que não era aí o seu lar. Mas ela demorou-se a querer ouvir, não quis saber.
Lá fora achavam que era Lua Nova e a escuridão da floresta ficava assim decifrada.
Os dias passavam e a Lua era apenas um fantasma no céu…
As marés não se conformavam. Primeiro desconfiadas a Lua Nova aceitaram, mas lá dentro da sua alma sentiam o engano. O tempo escorria e as ondas desorientaram-se, perderam o rumo… Procuraram inquietas a sua musa em todo o lado. Primeiro buscaram o sorriso de luz dentro das suas águas: indagaram os peixes, os corais e as estrelas-do-mar… Mas depois galgaram praias, penhascos, florestas e estradas. Fizeram-se à terra em busca de orientação.
Os homens fugiam incrédulos das terríveis ondas … Os dedos de mar apertavam carros, esmagavam casas, colhiam vidas… deixando apenas um rasto de sal.
Eu escondia os olhos com medo… indefesa mas responsável por tal destruição. Pedia ao sorriso de luz por tudo que se soltasse dos meus olhos… que pelo seu descuido outros sofriam.
“Não foi descuido”, disse-me a Lua a medo, “Foi amor…”
E o meu cabelo desprendia-se em asas que se queriam salvar dos braços de água e sal.
Foi então que decidida abracei as ondas de sal e de mar.
O sorriso de luz e a água dos meus olhos… iriam ao mar regressar.

The sacrifice, Michael Nyman